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- MOSTRA LUCIA CAMARGO – Dois Papas estreia no Festival de Curitiba com montagem brasileira
Em uma edição do Festival de Curitiba marcada por montagens de forte densidade política e humana, Dois Papas no Festival de Curitiba surge como uma das estreias mais relevantes da Mostra Lucia Camargo. O espetáculo será apresentado nos dias 6 e 7 de abril, às 20h30, no Guairão, e leva ao palco brasileiro a primeira montagem internacional do texto teatral de Anthony McCarten, autor também do livro homônimo e do roteiro do filme dirigido por Fernando Meirelles para a Netflix. Foto: Castelo Gandolpho / Zug Produções A peça parte de um encontro imaginado entre dois líderes da Igreja Católica com visões de mundo antagônicas: o conservador Papa Bento XVI, interpretado por Zécarlos Machado, e o então cardeal Jorge Bergoglio, futuro Papa Francisco, vivido por Celso Frateschi. O que poderia se resumir a um embate doutrinário se expande, na dramaturgia, para uma reflexão mais ampla sobre tradição, mudança, autoridade e a difícil arte de escutar quem pensa diferente. Um drama sobre religião que fala, sobretudo, do presente O ponto de partida da trama é simples e dramaticamente eficaz. Bergoglio viaja a Roma decidido a pedir aposentadoria, mas acaba sendo convocado por Bento XVI para uma conversa pessoal. A partir daí, o espetáculo constrói um diálogo em que tensão, humor, respeito e confronto convivem no mesmo espaço, expondo não apenas divergências teológicas, mas também dois modos de compreender o mundo e o papel da liderança. Esse é um dos grandes méritos da montagem: embora parta do universo religioso, Dois Papas no Festival de Curitiba não se limita a ele. O próprio Celso Frateschi sublinha esse alcance ao afirmar que a peça extrapola a esfera da fé e se impõe como reflexão sobre os impasses do nosso tempo. Segundo o ator, são “duas visões de mundo antagônicas” que iluminam a polarização contemporânea, em uma dramaturgia ao mesmo tempo filosófica e acessível. Munir Kanaan aposta na escuta como força dramática Com direção de Munir Kanaan, o espetáculo se organiza menos como duelo espetaculoso e mais como uma arena de complexidades. O diretor observa que, apesar de ser visto como figura mais aberta, é Bergoglio quem chega hesitante ao encontro, enquanto Bento XVI, associado ao conservadorismo, é quem propõe o diálogo. A inversão é decisiva para a encenação, porque desmonta leituras simplistas e sustenta a peça numa zona de ambiguidade rara: ninguém ali é apenas tese; ambos são homens, instituições e contradições ao mesmo tempo. Ao enfatizar a possibilidade de escuta mútua diante das diferenças, Kanaan reposiciona o texto de McCarten para um presente saturado por certezas absolutas. Não por acaso, Zécarlos Machado destaca a atualidade da obra em termos diretos: vivemos, segundo ele, um tempo em que “cada um tem sua própria verdade” e muitas vezes a afirma de maneira agressiva. A peça, nesse sentido, não oferece uma conciliação ingênua, mas propõe a reconciliação como exercício de reconhecimento do humano no outro. Dois Papas no Festival de Curitiba reúne dois veteranos em alta voltagem cênica Há ainda um peso simbólico importante na escolha do elenco. Celso Frateschi e Zécarlos Machado voltam a dividir o palco após “Santa Joana”, de Bernard Shaw, nos anos 1980, o que confere à montagem uma camada adicional de maturidade e presença. A relação entre os dois atores parece favorecer justamente o coração do espetáculo: a construção de um embate que não depende de caricaturas, mas de nuances, pausas, escuta e inteligência interpretativa. Ao lado deles, Carol Godoy e Eliana Guttman assumem papéis fundamentais na tessitura dramática. São elas que interpretam Irmã Sofia e Irmã Brigitta, personagens próximas aos protagonistas e decisivas para ampliar a dimensão íntima da narrativa. Em vez de funcionarem como meros apoios, suas presenças ajudam a revelar os contornos humanos por trás das figuras públicas, contribuindo para que a peça não se transforme em simples debate de ideias, mas em teatro de relações. Aparato visual reforça o conflito entre sacralidade e intimidade A encenação também aposta em um desenho visual sofisticado. O cenário branco, concebido como instalação cênica, vai se transformando por meio de figurinos, objetos e projeções, criando desde ambientes sacros até zonas de maior intimidade psicológica. O videomapping amplia a densidade imagética do espetáculo e ajuda a inserir materiais documentais sem quebrar a fluidez da cena, enquanto a trilha sonora conduz as passagens com discrição e precisão. Esse aparato não parece buscar excesso ornamental, mas uma espécie de limpeza simbólica que torne ainda mais visíveis as forças em disputa. Em um espetáculo centrado na palavra e no pensamento, a visualidade funciona como contraponto sensível, intensificando o confronto entre tradição e transformação que atravessa a obra. Uma montagem premiada antes mesmo de chegar a Curitiba A trajetória recente de Dois Papas no Festival de Curitiba reforça a expectativa em torno da montagem. Estreada mundialmente em junho de 2019, no Royal & Derngate Theatre, na Inglaterra, a peça chega ao Brasil cercada por reconhecimento. Após temporada de estreia no Sesc-SP, com sessões esgotadas e forte repercussão crítica, o espetáculo foi convidado para inaugurar a Sala Nobre do Teatro Cultura Artística, em São Paulo, marcando a retomada das apresentações no espaço. Em 2025, a montagem venceu o Prêmio Arcanjo de Cultura como Melhor Drama do Ano, e seus dois protagonistas foram indicados ao Prêmio APCA na categoria de Melhor Ator. Esses resultados ajudam a consolidar o espetáculo como uma das produções teatrais mais importantes da temporada e aumentam o peso de sua passagem por Curitiba. Serviço Dois Papas – Mostra Lucia Camargo34º Festival de CuritibaLocal: Teatro Guaíra (Guairão) — Rua Conselheiro Laurindo, 175, Centro Data: 6 e 7 de abril de 2026 Horário: 20h30 Categoria: Drama Classificação: Livre Duração: 135 minutos, com 15 minutos de intervalo. 34º Festival de CuritibaData: de 30 de março a 12 de abril de 2026 Valores: ingressos de R$ 0 a R$ 85, mais taxas administrativas Ingressos:www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller, Piso L3.
- MOSTRA LUCIA CAMARGO – Dias Felizes estreia no Festival de Curitiba com Beckett
A Armazém Companhia de Teatro retorna ao Festival de Curitiba com Dias Felizes, um dos textos mais cortantes e luminosamente cruéis de Samuel Beckett. As apresentações acontecem nos dias 3 e 4 de abril, às 20h30, no Guairinha, dentro da Mostra Lucia Camargo, levando ao público uma montagem que investiga a delicada fronteira entre resistência e colapso, entre a disciplina da rotina e a vertigem do vazio. Foto: Joao Gabriel Monteiro Em vez de tratar Beckett como monumento intocável, a companhia escolhe relê-lo a partir de um nervo muito contemporâneo. O espetáculo observa como seguimos nos agarrando a ritos mínimos, memórias fragmentadas e objetos banais para sustentar a passagem do tempo, mesmo quando tudo ao redor parece caminhar para a exaustão. Nesse gesto, Dias Felizes no Festival de Curitiba se afirma não apenas como remontagem de um clássico do século 20, mas como comentário agudo sobre o presente. Winnie entre o otimismo e a ruína Sob direção de Paulo de Moraes, a montagem ressignifica a jornada de Winnie, interpretada por Patrícia Selonk, figura central dessa paisagem moral e emocional devastada. Enterrada primeiro até a cintura e depois até o pescoço, Winnie tenta manter algum senso de ordem por meio de pequenos rituais diários, como se a repetição ainda pudesse conter a falência do mundo. Entre o sino estridente que regula seu dia e o sol impiedoso que dissolve qualquer noção estável de tempo, ela se agarra ao conteúdo de sua bolsa — escova de dentes, batom, espelho e um revólver — como quem preserva as últimas peças de uma identidade ameaçada. A beleza da construção está justamente no modo como a peça recusa soluções fáceis. Winnie não é apenas símbolo de resignação, nem apenas emblema de heroísmo. Ela existe nessa franja incômoda entre lucidez e autoengano, esperança e delírio. E é nesse espaço, tão humano quanto doloroso, que Beckett faz surgir sua ironia mais feroz. Na leitura da Armazém, essa tensão ganha corpo com nitidez e precisão. Willie e a companhia possível da solidão Ao lado de Winnie está Willie, personagem interpretado em dias alternados por Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e Jopa Moraes. Na encenação, ele não surge apenas como presença passiva ou resto de convivência, mas como uma figura ambígua, às vezes cúmplice silenciosa, às vezes lembrete incômodo de que até a solidão pode ter companhia. Essa escolha amplia o jogo cênico e evita reduzir a relação entre os dois a uma chave única de leitura. Essa dimensão relacional é importante porque faz o espetáculo escapar da abstração pura. Mesmo em um universo rarefeito, árido e quase pós-humano, Beckett continua falando de vínculo, dependência, hábito e desgaste. A companhia entre Winnie e Willie não oferece salvação, mas tampouco desaparece. Ela persiste como ruído, sombra, resto. E isso basta para intensificar a estranheza do conjunto. Beckett, crise climática e esgotamento contemporâneo A montagem também encontra uma chave atual ao aproximar a paisagem desolada da peça de inquietações ecológicas do nosso tempo. Se, em outras leituras, o cenário de Dias Felizes poderia remeter ao trauma nuclear do pós-guerra, aqui ele ressoa também como imagem de um planeta exaurido, ressecado, à beira do colapso. A crise do indivíduo se funde à crise da espécie, e a sensação de esgotamento deixa de ser apenas existencial para ganhar contornos ambientais e civilizatórios. Essa atualização não aparece como enxerto externo, mas como consequência natural da própria matéria dramatúrgica. Beckett continua perturbador porque fala de uma permanência humana diante do insuportável. No presente, esse insuportável inclui também a deterioração do mundo material, a sensação de que seguimos operando normalmente enquanto algo essencial já se rompeu. A Armazém Companhia de Teatro e a precisão do absurdo Com trajetória consolidada entre as mais importantes do teatro brasileiro, a Armazém Companhia de Teatro se aproxima de Beckett sem ornamentação excessiva. O que interessa aqui é o mecanismo impiedoso do tempo, o humor ácido das repetições e a maneira como o discurso de Winnie insiste em seguir adiante mesmo quando a realidade ao redor desautoriza qualquer expectativa de estabilidade. Nesse ponto, a montagem parece compreender algo essencial do autor: a comicidade de Beckett nunca suaviza a tragédia; ela a expõe ainda mais. Paulo de Moraes, premiado em 2024 pelo trabalho em Brás Cubas, conduz a encenação apostando nesse equilíbrio raro entre rigor formal e impacto sensível. Em cena, cada palavra soa como se viesse de um lugar ao mesmo tempo íntimo e terminal. Entre o riso e a ruína, como propõe o material da produção, a peça constrói um jogo cruel e fascinante, em que a esperança já não é certeza de nada, mas continua sendo pronunciada. Um clássico que insiste em nos olhar Há espetáculos que sobrevivem por prestígio histórico. Outros permanecem porque seguem nos dizendo algo incontornável. Dias Felizes no Festival de Curitiba pertence claramente ao segundo grupo. A peça resiste porque insiste em uma pergunta que nenhuma época consegue responder de forma definitiva: o que sustenta a vida quando as estruturas de sentido começam a falhar? Ao trazer essa questão de volta ao palco, a Armazém não oferece conforto. Oferece uma experiência de confronto. E talvez seja exatamente isso que faz desta montagem uma das presenças mais fortes da Mostra Lucia Camargo: ela devolve Beckett ao lugar que sempre foi seu, o de autor capaz de transformar o absurdo em espelho. Serviço Dias Felizes – Mostra Lucia Camargo34º Festival de CuritibaData: 3 e 4 de abril, às 20h30 Local: Guairinha — Rua XV de Novembro, 971 Classificação: 14 anos Gênero: Drama Duração: 75 minutos Acessibilidade: audiodescrição. 34º Festival de CuritibaData: de 30 de março a 12 de abril de 2026 Ingressos: Festival de Curitiba — www.festivaldecuritiba.com.brBilheteria física: Shopping Mueller, Piso L3, de segunda a sábado, das 10h às 22h, e domingos e feriados, das 14h às 20h.
- Maurício Meirelles em Curitiba com Surto Coletivo
Um dos nomes mais populares e inventivos da comédia brasileira, Maurício Meirelles em Curitiba promete movimentar a agenda cultural da capital paranaense no próximo dia 27 de março. O humorista apresenta, pela primeira vez na cidade, o espetáculo “Surto Coletivo”, em sessão única no Teatro UP Experience, levando ao palco um formato que amplia as fronteiras do stand-up tradicional ao combinar improviso, interação e tecnologia em tempo real. Foto: Reprodução A apresentação chega a Curitiba depois de temporadas bem-sucedidas em outras cidades e reforça uma característica que acompanha a trajetória de Maurício Meirelles: a capacidade de atualizar sua linguagem cômica sem perder a conexão direta com o público. Em “Surto Coletivo”, essa marca aparece de maneira ainda mais evidente, já que cada sessão nasce da participação da plateia e se transforma ao vivo diante do espectador. Um espetáculo que começa antes mesmo de subir a cortina Em Maurício Meirelles em Curitiba, a experiência proposta por “Surto Coletivo” começa antes do início oficial do show. Assim que chega ao teatro, o público é convidado a participar de um questionário dinâmico, que serve como matéria-prima para parte das interações desenvolvidas ao longo da apresentação. A proposta não funciona como simples recurso cênico. Ela redefine a lógica do espetáculo ao aproximar o humorista das inquietações, hábitos e contradições de quem está ali na plateia. O resultado é um show que se alimenta do presente, das respostas do público e dos temas que atravessam a vida contemporânea, criando uma atmosfera de identificação imediata. Mais do que assistir, o espectador passa a integrar o próprio mecanismo do espetáculo. “Surto Coletivo” aposta em tecnologia para tornar cada sessão única O grande diferencial de Surto Coletivo está justamente em sua arquitetura interativa. Durante o show, Maurício Meirelles utiliza uma tecnologia desenvolvida especialmente para o projeto, permitindo interações em tempo real e transformando cada apresentação em uma experiência singular, personalizada e imprevisível. Essa escolha aproxima o espetáculo do universo digital sem descaracterizar a essência do stand-up. Ao contrário: a tecnologia surge como ferramenta para ampliar a espontaneidade, reforçar o improviso e potencializar a leitura aguda que o comediante faz do comportamento humano. Em vez de um roteiro rigidamente fechado, “Surto Coletivo” constrói uma comédia em movimento, moldada pelas respostas da plateia e pela habilidade de Maurício em transformar o cotidiano em observação cômica. Humor para ler os absurdos do presente O novo show de Maurício Meirelles parte de uma percepção bastante contemporânea: a de que viver hoje exige lidar diariamente com exageros, tensões, contradições e pequenos colapsos coletivos. É nesse terreno que “Surto Coletivo” encontra sua força. Ao colocar o público no centro da experiência, o espetáculo traduz com humor os excessos da vida conectada, as neuroses do presente e os comportamentos que se repetem em escala quase absurda nas relações sociais, profissionais e afetivas. O riso, nesse contexto, não funciona apenas como alívio, mas também como espelho. Essa é uma das razões pelas quais Maurício Meirelles se consolidou como um dos principais nomes da comédia nacional: sua persona cênica alia raciocínio rápido, leitura de ambiente e uma linguagem afinada com o tempo em que vive. Curitiba recebe uma das apostas mais inovadoras da nova fase do humorista A passagem de Maurício Meirelles em Curitiba também chama atenção por marcar a chegada de um projeto que aposta em renovação formal. Em um cenário em que o stand-up brasileiro vem se expandindo e diversificando seus formatos, “Surto Coletivo” se destaca ao propor uma apresentação que ultrapassa o modelo clássico do monólogo de observação. O espetáculo preserva o humor afiado que tornou Maurício conhecido, mas incorpora novas camadas de participação e experimentação. O resultado é um show mais vivo, mais exposto ao acaso e, justamente por isso, mais conectado com o presente. Para o público curitibano, a estreia representa a chance de assistir a uma apresentação que não se repete exatamente de uma noite para outra. Cada reação, cada resposta e cada interação ajudam a construir uma sessão irrepetível. Ingressos já estão à venda A apresentação de Maurício Meirelles em Curitiba acontece em sessão única, o que deve aumentar a procura do público interessado em acompanhar de perto a estreia de “Surto Coletivo” na cidade. Os ingressos estão à venda no site oficial https://mauriciomeirelles.com.br/ Serviço Maurício Meirelles – Surto ColetivoData: 27 de março de 2026 (sexta-feira) Abertura da casa: 20h30 Sessão: 21h Local: Teatro UP Experience – TUX/Curitiba Endereço: Rua Prof. Pedro Viriato P. de Souza, 5300 – Curitiba (PR) Ingressos:https://mauriciomeirelles.com.br/
- MOSTRA LUCIA CAMARGO – Deriva estreia na Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba
Entre os espetáculos mais instigantes da 34ª edição do Festival de Curitiba, Deriva no Festival de Curitiba se destaca por deslocar o olhar do público para algo aparentemente simples, mas cada vez mais raro: a possibilidade de estar presente no espaço que se atravessa. Criado para marcar os 18 anos da Súbita Companhia de Teatro, o espetáculo estreia na Mostra Lucia Camargo nos dias 6 e 7 de abril, às 18h30, no Teatro José Maria Santos, propondo uma experiência cênica que parte da cidade para falar de tempo, corpo, memória e percepção. Foto: Mateus Tropo Mais do que uma peça, Deriva se apresenta como uma convocação à desaceleração. Em um tempo em que o deslocamento costuma ser reduzido à pressa, ao automatismo e à produtividade, a obra propõe o contrário: transformar o caminhar em atenção, o trajeto em linguagem e o espaço urbano em campo de imaginação crítica. A operação é simples apenas na aparência. O espetáculo faz da caminhada uma forma de resistência ao embrutecimento cotidiano e sugere que olhar de novo para a cidade talvez seja também uma forma de reaprender a habitá-la. A cidade como personagem e campo de disputa O ponto de partida conceitual de Deriva no Festival de Curitiba está numa provocação de Milton Santos: “o centro do mundo está em todo lugar”. A frase não aparece como ornamento intelectual, mas como eixo de pensamento para uma criação que investiga o centro urbano como território vivo de disputa, memória, conflito e invenção. Com dramaturgia de Maíra Lour e Pablito Kucarz, a montagem funde teatro e dança contemporânea para traduzir no palco as contradições da urbanidade, revelando as camadas históricas, arquitetônicas e identitárias que atravessam a vida nas cidades. É justamente nesse movimento que a obra ganha espessura. Em vez de tratar o espaço urbano como pano de fundo, Deriva o assume como matéria dramatúrgica. O centro da cidade deixa de ser cenário e passa a ser organismo, arquivo e fricção. O que se vê em cena é menos uma representação naturalista de ruas e edifícios e mais uma cartografia sensível de forças: violências, encantamentos, rastros, apagamentos e pulsões de pertencimento. Uma criação nascida da experiência direta com o espaço urbano A consistência de Deriva no Festival de Curitiba está diretamente ligada ao processo de criação. Para construir o espetáculo, a Súbita Companhia mergulhou em residências e experiências imersivas que cruzaram voz, paisagem, audiovisual, corpo, tecnologia e espaço urbano. Entre essas interlocuções estiveram a dramaturga Carla Kinzo, com a residência “Voz e paisagem — a cidade como personagem”; a artista visual Sol Faganello, em “Audiovisual, corpo e cidade”; e o artista argentino Iván Haidar, em “Corpo e Tecnologias”. Esse percurso aparece na cena não como ilustração de pesquisa, mas como densidade incorporada aos corpos. A tentativa, como indica o material do espetáculo, foi traduzir para a presença cênica “as contradições, violências, encantamentos e potências de uma cidade em constante reformulação sobre si mesma”. Há, portanto, um esforço de fazer o palco absorver a instabilidade do espaço urbano sem domesticá-la. O resultado tende a ser uma obra em que o movimento não é apenas coreográfico: é também histórico, político e perceptivo. Maíra Lour e a dramaturgia de um espetáculo em permanente movimento Diretora artística da montagem, Maíra Lour define Deriva como “um espetáculo em movimento constante sobre si mesmo”, capaz de se adaptar às especificidades dos territórios em que é apresentado e de estabelecer conexões diretas com a paisagem, a história local e o público presente. A definição é precisa porque aponta para uma qualidade importante da obra: sua recusa à fixidez. Em vez de oferecer uma forma fechada, Deriva no Festival de Curitiba assume a mobilidade como princípio. O espetáculo se reorganiza conforme o lugar, recolhe os traços do entorno e trata a cidade não como cenário passivo, mas como interlocutora. Essa opção o aproxima de uma linhagem de trabalhos contemporâneos que pensam o teatro e a dança a partir da experiência do espaço, mas o faz sem perder vínculo com questões brasileiras muito concretas: a ocupação desigual do centro, os rastros de violência inscritos na arquitetura e a multiplicidade de corpos que produzem as narrativas urbanas. Corpo, sobreposição e imagem: a cidade atravessada pela dança A dramaturgia coreográfica de Deriva no Festival de Curitiba nasce da pesquisa continuada entre Maíra Lour e a diretora de movimento Juliana Adur. Juntas, elas trabalham com sobreposições, rastros, qualidades de movimento e intensidades recolhidas das experiências nas ruas centrais da cidade. Não se trata de reproduzir a rua, mas de deixar que ela impregne a cena — em suas tensões, seus ritmos e seus resíduos. Essa pesquisa foi reconhecida no principal prêmio do teatro paranaense: Maíra Lour recebeu o Troféu Gralha Azul de Melhor Direção no biênio 2024/2025. O dado não funciona apenas como selo de prestígio, mas como indicativo da maturidade estética de um trabalho que vem consolidando a Súbita Companhia como uma das formações mais interessantes da cena local. A estreia da Súbita na Mostra Lucia Camargo Há também um peso simbólico importante na presença de Deriva nesta edição do festival. Embora a Súbita Companhia de Teatro tenha uma longa relação com o Festival de Curitiba, esta é sua estreia na Mostra Lucia Camargo — espaço que concentra parte da seleção curatorial mais prestigiada do evento. Antes disso, o grupo já havia marcado presença em diferentes momentos do festival, desde a estreia com “Diga aonde dói”, em 2009, na Mostra Fringe, até trabalhos como “Coração de Congelador”, “Porque não estou onde você está”, “Amores Difíceis”, “Extraordinário Cotidiano”, “Câmera Escura”, “O Arquipélago” e a Mostra Súbita Companhia em 2024. Esse percurso ajuda a dimensionar a importância de Deriva no Festival de Curitiba. Não se trata apenas de mais uma estreia, mas da entrada de uma companhia curitibana madura em um espaço central da programação, com uma obra concebida para celebrar sua maioridade artística. O gesto tem relevância para o grupo e para a própria cena local, ao reafirmar que a produção paranaense não apenas acompanha, mas formula caminhos contemporâneos de linguagem. Um espetáculo sobre reaprender a olhar No centro de Deriva está uma pergunta silenciosa, mas decisiva: o que deixamos de ver quando atravessamos a cidade apenas para chegar a outro lugar? A peça parece responder propondo que a arte ainda pode reativar a percepção e devolver complexidade ao que se tornou automático. Nesse sentido, sua força não está em enunciar uma tese, mas em criar uma experiência de suspensão, em que o público é convidado a reconstruir o olhar sobre lugares supostamente conhecidos. Em uma programação repleta de grandes nomes e montagens de alcance nacional e internacional, Deriva no Festival de Curitiba chama atenção por sua escala de escuta: menos espetacular no sentido convencional, mais radical em sua tentativa de fazer do teatro uma forma de presença. E talvez seja justamente aí que resida sua potência maior. Serviço Deriva – Mostra Lucia Camargo34º Festival de CuritibaDias: 6 e 7 de abril, às 18h30 Local: Teatro José Maria Santos – Rua 13 de Maio, 655 Duração: 60 minutos Gênero: Contemporâneo Classificação: 14 anos 34º Festival de CuritibaData: de 30 de março a 12 de abril de 2026 Ingressos:www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller – Piso L3.
- MOSTRA LUCIA CAMARGO – Como um Palhaço estreia no Festival de Curitiba com humor e crítica
Há algo de revelador no modo como o palhaço voltou a ocupar o imaginário contemporâneo. Antes associado ao jogo, à desordem e à alegria, o clown passou a circular também como imagem de medo, de caricatura política e de desconforto social. É justamente dessa transformação que parte Como um Palhaço, espetáculo que integra a Mostra Lucia Camargo da 34ª edição do Festival de Curitiba e será apresentado nos dias 10 e 11 de abril, no Teatro da CAIXA Cultural Curitiba. A nova criação de Helena Bittencourt e Goos Meeuwsen investiga a trajetória da palhaçaria ao longo da história e tensiona o lugar simbólico do palhaço na arte e fora dela. Foto: Renato Mangolin Em vez de recorrer à nostalgia ou à reverência fácil, a montagem prefere a fricção. A pergunta que a sustenta é simples e incômoda: o que aconteceu com a figura do palhaço? O espetáculo parte dessa provocação para construir uma comédia que cruza tradição, tecnologia, pesquisa histórica e desconstrução estética, sugerindo que a crise do clown talvez diga muito sobre o estado atual do próprio riso. Entre conferência e colapso, o espetáculo desmonta a imagem clássica do clown A encenação começa como uma conferência acadêmica sobre palhaços. Dois intelectuais ocupam um púlpito e parecem dispostos a conduzir uma exposição racional sobre o tema. Mas a solenidade não dura. Aos poucos, o discurso é atravessado por desvios, interrupções e acontecimentos inesperados, e a estrutura da conferência se desfaz em um jogo cênico mais instável, lúdico e provocador. Esse deslocamento formal é um dos achados da peça: ela transforma a própria tentativa de explicar o palhaço em motor de comicidade e estranhamento. Helena Bittencourt resume com precisão o gesto central da obra ao afirmar que o espetáculo “desconstrói a imagem mítica e ficcional do palhaço, pesquisando os múltiplos significados que a profissão adquiriu ao longo do tempo”, enquanto cria “alegorias, cenários lúdicos e situações ficcionais”. A fala indica o horizonte da criação: não se trata de restaurar uma essência perdida, mas de investigar como esse personagem foi sendo deformado, apropriado e ressignificado conforme mudavam as sensibilidades históricas. Como um Palhaço observa a metamorfose de um personagem histórico Ao longo do espetáculo, o palhaço deixa de ser apenas uma figura do circo para se tornar um campo de disputa simbólica. A pesquisa que embasa Como um Palhaço atravessa referências que vão de tradições indígenas milenares aos bufões egípcios, da commedia dell’arte ao circo moderno. Em todas essas formas, permanece algo comum: o clown expõe o ridículo, embaralha hierarquias e revela aquilo que o poder preferiria esconder. O problema é que, no presente, essa imagem já não chega intacta ao espectador. Goos Meeuwsen observa que o riso continua sendo elemento essencial da experiência humana, porque conecta, alivia e nos devolve aos nossos próprios absurdos. Mas a figura do palhaço mudou. O rosto pintado, o nariz vermelho e os sapatos grandes, diz ele, passaram a soar para muitos como algo ultrapassado ou inquietante. Essa mutação, longe de ser apenas estética, ajuda a compreender a mudança mais ampla das formas de recepção, do humor e da própria relação entre espetáculo e sociedade. Entre o riso e o desconforto, a peça escolhe a inteligência Um dos méritos de Como um Palhaço está em recusar o caminho mais fácil da homenagem melancólica. Helena Bittencourt deixa isso explícito quando afirma que o trabalho “não é sobre lamentar a perda do lugar do palhaço na sociedade”, nem um apelo por reconhecimento de uma imagem ultrapassada. “É sobre riso. É sobre transformação. É sobre de onde viemos, como a sociedade evolui e como algumas emoções permanecem universais. É sobre abraçar a alegria da falta de vergonha.” Essa formulação é importante porque ajuda a situar o espetáculo no presente. Em vez de tratar o clown como ruína cultural, a peça o reposiciona como ferramenta crítica. O palhaço aqui não é apenas personagem, mas método: um modo de desmontar o excesso de seriedade, de interromper discursos estabilizados e de devolver o corpo, o erro e o absurdo ao centro da cena. Uma criação de trajetória internacional que retorna ao Brasil em novo momento Criado no Rio de Janeiro, Como um Palhaço marcou o retorno de Helena e Goos aos palcos brasileiros depois de quase oito anos. Desde a estreia, em setembro de 2025, no Teatro de Arena do Sesc Copacabana, a montagem já alcançou cerca de 5 mil espectadores, com temporadas no Brasil e na Holanda. Em 2026, abriu o festival This is not a circus, no Theater Bellevue, em Amsterdã. A trajetória da dupla ajuda a explicar a consistência do projeto. Helena Bittencourt, formada pela UniRio e pela Escola Nacional de Circo, completa 30 anos de carreira em 2025. Goos Meeuwsen, artista holandês formado pela École Nationale de Cirque, em Montreal, traz para a parceria uma experiência internacional que inclui criações próprias e participações em produções como Corteo e Love – The Beatles, do Cirque du Soleil, além de Bianco su Bianco, da Cia Finzi Pasca. Em cena, os dois assinam direção, dramaturgia, conceito e interpretação, sustentando uma obra que expande o campo tradicional da palhaçaria com recursos videográficos, composição visual e elaboração estética refinada. No Festival de Curitiba, uma comédia sobre o que ainda nos faz rir Em um festival que costuma reunir obras de forte densidade política e experimental, Como um Palhaço se destaca por operar nesse mesmo campo sem abrir mão do humor. É uma peça sobre o riso, mas também sobre sua corrosão; sobre a tradição do clown, mas também sobre sua falência como imagem pacificada; sobre a alegria, mas sempre à beira do desconforto. Ao recolocar o palhaço sob escrutínio, a montagem parece fazer uma pergunta maior: o que uma sociedade revela sobre si quando já não sabe exatamente o que fazer com suas figuras do riso? Em vez de responder de forma direta, o espetáculo prefere transformar essa dúvida em linguagem cênica. E é justamente aí que encontra sua força. Serviço Como um Palhaço – Like a Clown – Mostra Lucia Camargo34º Festival de CuritibaData: 10 e 11 de abril Local: Teatro da CAIXA Cultural Curitiba – Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Centro Classificação: 8 anos Categoria: Comédia Duração: 1h20 34º Festival de CuritibaData: 30 de março a 12 de abril de 2026 Valores: de R$ 0 a R$ 85, mais taxas administrativas Ingressos:www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller, Piso L3.
- MOSTRA LUCIA CAMARGO – Cabo Enrolado chega ao Festival de Curitiba com solo potente
Cabo Enrolado no Festival de Curitiba chega como um dos trabalhos mais contundentes da Mostra Lucia Camargo na 34ª edição do evento. Criado, interpretado e dirigido por Julio Lorosh, o solo da Cia. Graxa será apresentado nos dias 11 e 12 de abril, no Teatro José Maria Santos, levando ao palco uma reflexão afiada sobre periferia, trabalho, urbanização e os mecanismos históricos que moldam a experiência de quem cresce nas margens da metrópole. Foto: Divulgação Com dramaturgia ancorada na memória pessoal e em uma pesquisa cênica de forte densidade política, o espetáculo transforma a trajetória de um jovem periférico em lente para observar processos muito maiores. Em cena, infância, violência, sonhos de ascensão e precarização do trabalho se entrelaçam em uma narrativa que parte do íntimo para atingir o estrutural. Um solo que nasce da dor e se transforma em arte de enfrentamento A origem de Cabo Enrolado no Festival de Curitiba está em um episódio traumático da vida de Julio Lorosh. Em novembro de 2015, seu irmão foi baleado na Avenida Radial Leste, em São Paulo, e ficou paraplégico. A partir dessa ferida, o artista iniciou uma investigação sobre o sujeito periférico paulistano, seus modos de habitar a cidade, suas estratégias de sobrevivência e a violência que atravessa seu cotidiano. Essa experiência não aparece no espetáculo como simples confissão autobiográfica. Ela é reelaborada em cena como impulso estético e político. O resultado é um trabalho que não busca piedade, mas entendimento. Em vez de recorrer ao discurso fácil, a montagem articula denúncia, poesia e musicalidade para expor como a cidade produz hierarquias, distribui precariedades e condiciona destinos. Da casa em construção ao trabalho por aplicativo A imagem central da peça é poderosa: sobre os tijolos de uma casa em construção, uma infância vai sendo edificada nas bordas da metrópole. Esse ponto de partida ajuda a compreender a lógica da obra. O crescimento do personagem se dá junto com a expansão urbana, com o crédito, com as promessas de mobilidade social e com as ilusões de progresso vendidas às periferias. Mais tarde, esse mesmo jovem atravessa o mercado de trabalho mediado pelos aplicativos de entrega, entrando em contato com uma ideia de liberdade que, no fundo, mascara novas formas de exploração. A peça traça, assim, um paralelo entre passado e presente, entre o Brasil colonial e o capitalismo de plataforma, mostrando como determinadas estruturas de subalternização apenas mudam de aparência. Em Cabo Enrolado no Festival de Curitiba, o trabalho não surge como tema abstrato. Ele aparece encarnado no corpo, no cansaço, na urgência e na luta diária por dignidade. É nessa concretude que o espetáculo encontra sua força. Humor, música e confronto direto com a plateia Um dos grandes méritos da montagem está em sua linguagem. Embora trate de temas duros, o espetáculo não se entrega à solenidade. Julio Lorosh conduz a cena em diálogo direto com o público, combinando humor, ironia, enfrentamento e lirismo. Essa aproximação cria um jogo vivo, em que o espectador não apenas acompanha uma narrativa, mas é implicado por ela. A musicalidade urbana é parte essencial dessa construção dramatúrgica. Funk, hip-hop e outras expressões das periferias entram na encenação não como ornamento, mas como pulsação de pensamento e de presença. A trilha e a criação musical ajudam a estruturar a experiência cênica, reforçando a dimensão política do espetáculo sem sacrificar sua potência artística. Cabo Enrolado no Festival de Curitiba propõe novas imagens da periferia Mais do que contar uma história individual, a peça procura romper imagens cristalizadas sobre o sujeito periférico. Em vez de reforçar clichês, o trabalho investiga a subjetividade que nasce nas bordas da cidade, marcada por violência e contradição, mas também por inteligência, invenção, humor e desejo. Esse gesto é central para a proposta da Cia. Graxa, fundada em 2019 com o objetivo de criar poéticas baseadas na experiência periférica. O grupo atua especialmente na zona leste de São Paulo, em diálogo com coletivos locais e com processos de formação artística, o que ajuda a sustentar a coerência entre discurso, prática e território. Em Cabo Enrolado no Festival de Curitiba, essa perspectiva se consolida em um espetáculo que observa a cidade a partir de quem a constrói, a atravessa e a sustenta. É uma mudança de foco que faz toda a diferença. Um dos espetáculos mais urgentes da Mostra Lucia Camargo Ao chegar ao Festival de Curitiba, Cabo Enrolado carrega uma trajetória de temporadas em espaços como Teatro Flávio Império, Teatro Artur de Azevedo e Sesc Belenzinho, além de participações em eventos como o Festival de Teatro de Heliópolis e a Semana do Hip-Hop do Sesc Bauru. Essa circulação reforça a força de uma obra que vem se consolidando como uma das vozes importantes do teatro contemporâneo paulista. No contexto do festival, o espetáculo se destaca por articular com precisão memória individual e crítica social. É um trabalho que fala de urbanização, colonialidade e trabalho precarizado sem perder a dimensão sensível do humano. E justamente por isso atinge em cheio: porque faz da cena um espaço de pensamento, mas também de presença, escuta e abalo. Serviço Cabo Enrolado – Mostra Lucia Camargo34º Festival de CuritibaData: 11 de abril, às 20h30, e 12 de abril, às 18h30 Local: Teatro José Maria Santos – Rua Treze de Maio, 655, São Francisco Classificação: 12 anos Categoria: Teatro Contemporâneo Duração: 75 minutos Acessibilidade: espetáculo com intérprete de Libras 34º Festival de CuritibaData: de 30 de março a 12 de abril de 2026 Ingressos:www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller, Piso L3.
- MOSTRA LUCIA CAMARGO – BRACE estreia no Festival de Curitiba com dança e ancestralidade
O BRACE Festival de Curitiba chega à 34ª edição do evento como uma das estreias internacionais mais relevantes da Mostra Lucia Camargo. Criado pelo coreógrafo e bailarino moçambicano Edivaldo Ernesto, o espetáculo faz sua estreia nacional nos dias 5 e 6 de abril, no Sesc da Esquina, e propõe uma imersão intensa em temas como memória, resistência e herança ancestral, a partir da história de povos que habitaram o Sul da África entre os séculos XV e XIX. Foto: Albert Vidal Mais do que uma apresentação de dança, BRACE Festival de Curitiba se anuncia como uma experiência cênica de alto impacto poético e político. A obra nasce inspirada nas trajetórias dos povos Mwene Mutapa, Zulos e Changana, sociedades que ocuparam territórios dos atuais Zimbabwe, Moçambique e África do Sul e desenvolveram sistemas políticos, culturais e econômicos complexos, marcados também por episódios de resistência às opressões colonialistas. Edivaldo Ernesto transforma história em movimento Em BRACE Festival de Curitiba, Edivaldo Ernesto não recorre à história como ilustração, mas como matéria viva de criação. Nascido em Maputo e radicado na Alemanha, o artista constrói uma narrativa corporal que atravessa a sua própria ancestralidade e questiona a maneira como o olhar ocidental ainda costuma enquadrar corpos e culturas africanas em uma lógica de carência permanente. Segundo o próprio criador, o processo partiu da necessidade de reposicionar essas existências no centro da cena, em sua soberania e potência. A proposta, portanto, não é apenas recordar o passado, mas afirmar a complexidade histórica desses povos e devolver densidade simbólica a corpos que tantas vezes foram reduzidos a estereótipos. Em cena, essa herança aparece de forma sensível: um personagem que carrega a força da memória coletiva, mas também a vulnerabilidade de quem permanece profundamente humano. BRACE Festival de Curitiba conecta África e Brasil pelo corpo A vinda de Edivaldo Ernesto ao Brasil adiciona outra camada de interesse ao espetáculo. Pela primeira vez apresentado no país, BRACE Festival de Curitiba também se constrói como ponte entre territórios historicamente ligados pela diáspora africana. O artista afirma enxergar na cultura brasileira ecos profundos dessa herança, percebendo no Brasil uma energia que dialoga com expressões do seu país natal e que alimenta diretamente seu impulso criativo. Esse elo torna a apresentação especialmente significativa em Curitiba. O público brasileiro é convocado não apenas a assistir a uma obra internacional, mas a reconhecer no movimento, no ritmo e na presença do corpo marcas de uma memória compartilhada. Há, nesse gesto, uma dimensão de reencontro que reforça a potência do espetáculo e amplia sua ressonância para além do palco. Corpo, som e espaço como uma mesma orquestra Um dos aspectos mais fascinantes de BRACE Festival de Curitiba está na maneira como Edivaldo Ernesto articula corpo, som e espaço. O artista define esses elementos como uma grande orquestra, em que o corpo funciona como instrumento principal e os sons por ele produzidos se tornam matéria dramatúrgica em composição com a música. A dança, assim, não é apenas visual: ela vibra como arquitetura sonora, pulsação e presença. Essa abordagem dialoga com a trajetória internacional do coreógrafo, que começou nas danças tradicionais e se aprofundou em técnicas como Flying Low e Passing Through, desenvolvidas pelo venezuelano David Zambrano, com quem atua desde 2010 como assistente e intérprete. Além disso, Ernesto desenvolveu metodologias próprias de improvisação e composição de movimento, ensinadas há mais de uma década em diversos países e universidades. Essa bagagem aparece em cena como rigor técnico, liberdade expressiva e uma compreensão refinada do corpo como linguagem total. Uma das atrações internacionais mais potentes do festival Dentro da programação do festival, BRACE Festival de Curitiba se destaca por reunir qualidades raras em uma mesma obra: densidade histórica, elaboração estética e força performática. É um espetáculo que trabalha com a memória sem se tornar ilustrativo, que fala de resistência sem perder sofisticação formal e que transforma o corpo em arquivo, território e afirmação. Em um tempo em que a dança contemporânea frequentemente busca novas formas de narrar o mundo, Edivaldo Ernesto oferece uma criação que escapa do lugar comum. Sua arte não se organiza apenas em torno do virtuosismo técnico, mas da urgência de fazer o movimento dizer algo essencial sobre origem, permanência e dignidade. Por isso, a estreia de BRACE Festival de Curitiba tem potencial para se firmar como um dos momentos mais marcantes da Mostra Lucia Camargo. Serviço BRACE – Mostra Lucia CamargoEstreia nacionalDatas: 5 de abril, às 19h, e 6 de abril, às 20h30 Local: Sesc da Esquina – Rua Visconde do Rio Branco, 969 – Mercês Classificação: Livre Categoria: Dança Duração: 55 minutos 34º Festival de CuritibaData: de 30 de março a 12 de abril de 2026 Ingressos:www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller – Piso L3.
- MOSTRA LUCIA CAMARGO – Bailarinas Incendiadas estreia no Brasil no Festival de Curitiba
Entre os destaques internacionais da Mostra Lucia Camargo, Bailarinas Incendiadas chega ao 34º Festival de Curitiba como uma das montagens mais instigantes e conceitualmente potentes da edição. O espetáculo, criado pela diretora argentina Luciana Acuña e pelo Grupo Krapp, faz sua estreia no Brasil nos dias 9 e 10 de abril, às 20h30, no Teatro Cleon Jacques, propondo uma experiência cênica que cruza dança, teatro, música e cinema para investigar o corpo feminino, a fabricação da beleza e a permanência da violência no imaginário artístico. Carla Di Grazia, Milva Leonardi, ( der izq) adelante y Luciana Acuña, Agustín Fortuny atrás, performers del equipos de “Bailarinas incendiadas” en un pasaje de la obra fiesta, en la función del 28 de mayo en el Centro de Creación Contemporánea ARTHAUS de la ciudad de Buenos Aires. A montagem parte de um dado histórico ao mesmo tempo real e perturbador: no século 19, ser bailarina podia significar viver em permanente estado de risco. Um ensaio do professor e historiador da arte Ignacio Gonzales, da Faculdade de Buenos Aires, revelou a recorrência de acidentes provocados pela iluminação com lampiões a gás, que incendiavam os figurinos de tule usados pelas bailarinas em cena. A partir desse material, Luciana Acuña constrói uma obra que não se limita a recuperar uma curiosidade histórica, mas a transforma em pergunta radical sobre o preço da beleza e sobre aquilo que o espetáculo esconde para existir. Luciana Acuña transforma tragédia histórica em experiência cênica radical Reconhecida como uma das criadoras mais importantes da cena contemporânea argentina, Luciana Acuña encontrou nessa pesquisa um ponto de partida poderoso para tensionar toda uma tradição estética. Em Bailarinas Incendiadas, a combustão dos vestidos e dos corpos não é tratada apenas como acidente, mas como metáfora de um sistema de exposição, consumo e sacrifício do feminino. A pergunta que atravessa a criação é direta e devastadora: o que ainda resta, hoje, dessa lógica de morrer pela beleza? A própria diretora formula essa questão de maneira contundente ao afirmar: “Bailarinas que pegam fogo por causa de seus vestidos. Vestidos que produzem beleza. Morrer pela beleza. Vale a pena perguntar o que disso ainda permanece hoje. E essa pergunta fica no ar”. A frase sintetiza o centro nervoso da obra: uma reflexão que ultrapassa o balé e alcança as formas contemporâneas de exaustão, exibição e violência simbólica que ainda recaem sobre os corpos femininos em cena e fora dela. Um espetáculo sobre corpos expostos, memória e participação O que torna Bailarinas Incendiadas particularmente singular é a recusa da distância confortável entre palco e plateia. A montagem exige das intérpretes um trabalho intenso de entrega física e emocional, mas também convoca o público a participar ativamente da experiência, como se todos compartilhassem o espaço dessa fogueira simbólica. Em vez de contemplação passiva, a obra propõe imersão, risco e proximidade. Luciana Acuña explica essa escolha com clareza: “Desde o começo tive a intuição de que todos deveriam estar dentro dessa fogueira. Não era uma obra para ser vista de longe. Não havia tanto algo para mostrar, mas sim algo para compartilhar. A experiência deveria ser vivida em igualdade com o espectador”. A declaração ilumina o princípio ético e estético da montagem: mais do que apresentar um tema, o espetáculo deseja fazer o público atravessá-lo corporalmente. Entre a história e o mito, uma cena atravessada por fogo A pesquisa de Acuña e do Grupo Krapp não se restringe ao dado histórico das bailarinas queimadas. A criação se expande para todo o universo estético e simbólico do período, investigando quem eram essas mulheres, como eram vistas e até que ponto a violência sofrida por elas também fazia parte da maquinaria do espetáculo. Nesse percurso, a diretora incorpora ainda a figura de La Telesita, santa popular do norte argentino, especialmente cultuada em Santiago del Estero, que também teria morrido incendiada. Esse gesto alarga o alcance da obra. O fogo deixa de ser apenas fato histórico e passa a funcionar como elo entre arte, martírio, devoção, desejo e extermínio. É justamente nessa zona ambígua, entre a imagem sedutora e a destruição concreta, que Bailarinas Incendiadas encontra sua maior força poética. A estreia brasileira de um dos nomes mais importantes da cena argentina A chegada do espetáculo ao Festival de Curitiba reforça o papel da Mostra Lucia Camargo como espaço de encontro entre linguagens e geografias artísticas. Com o Grupo Krapp, Luciana Acuña construiu uma trajetória reconhecida na Argentina e internacionalmente pela capacidade de tensionar formatos, borrar fronteiras entre disciplinas e criar obras de alta densidade visual e conceitual. Em Curitiba, essa assinatura aparece em uma montagem multiplataforma, com vídeo, música, efeitos e presença física intensa, em uma encenação que articula impacto visual e elaboração crítica com raro equilíbrio. Não por acaso, Bailarinas Incendiadas chega ao Brasil cercado de expectativa. O espetáculo mobiliza temas contemporâneos decisivos — a espetacularização do corpo, a permanência de estruturas de sacrifício e a violência inscrita nos códigos da beleza — sem perder a sofisticação formal. Trata-se de uma obra que pensa a cena, mas também pensa o olhar que a consome. Bailarinas Incendiadas é uma das experiências mais fortes do Festival de Curitiba Em uma edição que já se anuncia diversa e contundente, Bailarinas Incendiadas se destaca por sua combinação de rigor conceitual, invenção cênica e densidade política. É o tipo de trabalho que não apenas impressiona pela forma, mas permanece reverberando depois do fim da sessão. Ao trazer para o presente imagens de mulheres que literalmente ardiam em nome do espetáculo, Luciana Acuña devolve ao palco uma pergunta incômoda e necessária sobre o que ainda estamos dispostos a naturalizar em nome da beleza, da arte e da fascinação. Serviço Bailarinas Incendiadas – Mostra Lucia Camargo34º Festival de CuritibaLocal: Teatro Cleon Jacques – Rua Prof. Nilo Brandão, 710 – São Lourenço Data: 9 e 10 de abril de 2026 Horário: 20h30 Categoria: Drama Classificação: Livre Duração: 75 minutos 34º Festival de CuritibaData: de 30 de março a 12 de abril de 2026 Ingressos:www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller – Piso L3.
- MOSTRA LUCIA CAMARGO – Atrás das Paredes chega ao Festival de Curitiba
Em um festival que tradicionalmente reúne alguns dos trabalhos mais pulsantes da cena brasileira, Atrás das Paredes surge como uma das montagens mais incômodas e relevantes da Mostra Lucia Camargo. A peça da Cia. Plágio de Teatro, do Distrito Federal, será apresentada nos dias 7 e 8 de abril, às 20h30, na CAIXA Cultural Curitiba, levando ao público uma comédia dramática que transforma um almoço de domingo em campo de tensão moral, psicológica e social. Foto: Alexandre Magno Ao escolher o espaço doméstico como território dramático, o espetáculo acerta em cheio no nervo de um tema que permanece atual e urgente: aquilo que se esconde sob a aparência da convivência civilizada. Em Atrás das Paredes, o público ocupa o lugar de um convidado invisível, testemunhando uma confraternização familiar aparentemente banal que, pouco a pouco, deixa escapar fissuras profundas. Violência doméstica, perversões da intimidade, falência ética e a capacidade destrutiva do ser humano contra os seus compõem o centro da experiência dramatúrgica. Um almoço comum que se transforma em vertigem A trama parte de um gesto simples. Em um domingo, uma família se prepara para o almoço. Flora, esposa de Simão, decide fazer uma surpresa e convida a família vizinha para celebrar um aniversário. O que parecia ser apenas mais um encontro entre pessoas próximas vai se convertendo em um jogo de revelações, constrangimentos e violências sutis — algumas simbólicas, outras devastadoramente concretas. Essa construção é uma das forças da peça. O texto não depende de grandes acontecimentos externos, mas da erosão progressiva das aparências. O que estava submerso começa a emergir à mesa, nos silêncios, nos desvios de fala, nas tensões entre os personagens. O riso, quando vem, não alivia: ele surge nervoso, desconfortável, como reação diante do que a encenação expõe sobre a intimidade e sobre a fragilidade das convenções sociais. A dramaturgia de Santiago Serrano e a anatomia do humano Autor do texto, o argentino Santiago Serrano é um dramaturgo com formação em psicologia e uma trajetória consolidada em diferentes países. Estabelecido em Brasília desde 2005, ele desenvolveu uma escrita realista marcada pela construção de personagens multidimensionais e pela recusa de respostas fáceis. Em suas peças, nada é exatamente o que parece num primeiro momento. Essa marca aparece com nitidez em Atrás das Paredes. O espetáculo não distribui culpas de forma simplista nem organiza o mundo entre heróis e vilões. Ao contrário, insiste em mostrar seres humanos em sua riqueza e em sua tragédia, atravessados por desejo, delírio, frustração, impulso e contradição. O resultado é uma dramaturgia que observa a violência não apenas como explosão física ou evento extremo, mas como processo cotidiano, muitas vezes naturalizado dentro das “quatro paredes”. Há ainda um elemento importante nessa escrita: Serrano costuma criar a partir de vínculos concretos com os intérpretes. Em declaração presente no material da produção, ele define esse processo como uma espécie de incorporação sensível do outro, quase mediúnica, em que a escrita se torna ato de entrega. Esse método ajuda a explicar a densidade humana de seus textos e a precisão com que seus personagens parecem respirar para além da página. Direção concentrada, espaço único e alta temperatura cênica Com direção de Sérgio Sartório, a peça se passa quase inteiramente em um único cômodo da casa, em um ato de 60 minutos. Essa unidade espacial intensifica o confinamento dramático e amplia a sensação de voyeurismo que estrutura a experiência do espectador. O público não é conduzido por grandes deslocamentos; ele é mantido dentro do ambiente, como se estivesse preso àquela sala, obrigado a encarar o que emerge quando a intimidade deixa de ser abrigo e passa a ser ameaça. Em cena, estão André Deca, Bianca Terraza, Carmem Moretzsohn, Chico Sant’Anna e Daniela Vasconcelos, formando um elenco capaz de sustentar as múltiplas camadas do texto. A direção parece apostar menos no excesso e mais na combustão interna das relações, o que favorece a progressão do mal-estar e dá peso às ambiguidades dos personagens. Dez anos de Plágio Companhia de Teatro A presença de Atrás das Paredes no Festival de Curitiba também marca um momento importante para a trajetória da companhia. O espetáculo celebra os dez anos de atividades da Plágio Companhia de Teatro, grupo que, ao longo dessa década, produziu 14 montagens e conquistou 18 prêmios. Mais do que um marco numérico, a estreia na Mostra Lucia Camargo funciona como afirmação de maturidade artística e de continuidade de uma parceria criativa importante com Santiago Serrano. Essa colaboração já rendeu outros trabalhos da companhia com textos do autor, como Noctiluzes, Autópsia de um Beija-flor e Saiba o seu lugar, reforçando uma afinidade rara entre dramaturgia e grupo. O festival, nesse contexto, não apenas exibe um novo espetáculo: ele acolhe o resultado de um processo continuado de criação. Um espetáculo sobre o que a sociedade prefere não ver Em tempos em que a violência muitas vezes se disfarça de rotina, de costume ou de intimidade legitimada, Atrás das Paredes tem o mérito de deslocar o olhar do espectador. Não se trata apenas de assistir a uma história, mas de ser confrontado com uma pergunta incômoda: quantas violências seguem invisíveis justamente porque aprenderam a se esconder na vida comum? É essa inteligência de abordagem que torna a peça uma das atrações mais fortes da programação. Ao articular realismo, humor tenso e observação psicológica, o espetáculo transforma a casa em espelho cruel da sociabilidade contemporânea. E faz isso sem didatismo, sem panfleto e sem simplificação — apenas com teatro de alta voltagem, centrado em personagens, conflito e subtexto. Serviço Atrás das Paredes – Mostra Lucia Camargo34º Festival de CuritibaData: 7 e 8 de abril de 2026 Horário: 20h30 Local: CAIXA Cultural Curitiba Classificação: 14 anos Categoria: Comédia Dramática Duração: 60 minutos 34º Festival de CuritibaData: de 30 de março a 12 de abril de 2026 Ingressos:www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller – Piso L3.
- MOSTRA LUCIA CAMARGO – A Sabedoria dos Pais estreia no Festival de Curitiba
A Sabedoria dos Pais no Festival de Curitiba chega cercada de simbolismo, afeto e peso histórico. Em cartaz na Mostra Lucia Camargo da 34ª edição do evento, a comédia romântica escrita e dirigida por Miguel Falabella coloca no centro da cena dois artistas fundamentais da dramaturgia brasileira: Natália do Vale e Herson Capri, que celebram cinquenta anos de carreira com um espetáculo inédito criado especialmente para a dupla. As sessões acontecem nos dias 8 e 9 de abril, às 20h30, no Guairão. Herson Capri e Natália do Vale na peça A Sabedoria dos Pais – Foto: Reprodução Mais do que uma estreia de temporada, a montagem se impõe como um acontecimento teatral. De um lado, marca o retorno de Natália do Vale aos palcos depois de 23 anos. De outro, representa o aguardado debut de Herson Capri no Festival de Curitiba — justamente no Teatro Guaíra, espaço que atravessa sua história desde a adolescência e que ele viu nascer, incompleto, entre brincadeiras de infância e um incêndio que marcou sua memória. Um texto inédito de Miguel Falabella sobre amor, maturidade e recomeço Em A Sabedoria dos Pais no Festival de Curitiba, Miguel Falabella parte de uma premissa simples e poderosa: um casal que, após 35 anos de um casamento aparentemente perfeito, decide se separar. A partir dessa ruptura, o texto acompanha os dez anos seguintes, quando cada um precisa reaprender a viver, reorganizar seus afetos e encarar as marcas deixadas por uma vida inteira em comum. No caminho, memórias familiares, aprendizados herdados dos pais e novas experiências atravessam essa travessia emocional. A peça trata de recomeços sem cair em caricaturas. Com humor, delicadeza e inteligência dramática, aborda etarismo, reinvenção pessoal, afeto na maturidade e a continuidade da vida amorosa depois de décadas compartilhadas. Há no texto uma observação fina sobre o tempo, a companhia e o modo como o amor também pode sobreviver às transformações mais radicais. Natália do Vale volta ao teatro após 23 anos O retorno de Natália do Vale ao palco é um dos grandes acontecimentos da montagem. Seu último trabalho no teatro havia sido Capitanias Hereditárias, também de Miguel Falabella, em 2002. Agora, ao reencontrar o palco em um momento mais maduro da carreira, a atriz transforma a peça em gesto artístico e pessoal. Ela própria explica que, durante boa parte da vida profissional, conciliou televisão e teatro, mas que nos últimos anos não desejava mais manter esse modelo. Voltar agora, com mais disponibilidade e presença, representa um reencontro em tempo pleno com a cena. Esse retorno ganha ainda mais força porque acontece ao lado de Herson Capri, parceiro com quem já dividiu trabalhos na televisão em O Outro, Negócio da China e Em Família. O vínculo entre os dois, porém, ultrapassa a parceria profissional. Natália resume esse laço ao lembrar que os dois fizeram irmãos em uma novela e, dali em diante, se tornaram irmãos também na vida. Herson Capri estreia no Festival de Curitiba no teatro de sua memória Se a volta de Natália emociona, a presença de Herson Capri no Festival de Curitiba carrega um componente quase mítico. Nascido em Ponta Grossa, mas criado em Curitiba, o ator cresceu acompanhando a construção do Teatro Guaíra. Ainda menino, fazia do entulho das obras paradas um espaço de brincadeira. Já adolescente, assistiu da Praça Santos Andrade ao incêndio que consumiu parte da estrutura do teatro, em uma imagem que nunca deixou sua memória. Décadas depois, estreia no festival justamente nesse mesmo complexo, agora como um dos maiores nomes da interpretação brasileira. Há algo de circular e profundamente teatral nesse retorno. No próprio Guairinha, Herson apresentou seu primeiro espetáculo, ainda estudante do Colégio Estadual do Paraná, numa montagem de O Julgamento de Joana. Foi naquele ambiente que tomou a decisão que definiria sua vida: ao olhar para os refletores apagados durante um ensaio geral, entendeu que tinha descoberto, aos 15 anos, o que queria fazer para sempre. Uma carreira moldada entre teatro, televisão e cinema A matéria especial sobre Herson Capri reforça a dimensão dessa estreia. Com mais de cem personagens interpretados ao longo da carreira, o ator construiu uma trajetória que atravessa teatro, cinema, novelas e séries, sempre com rara consistência técnica e rigor artístico. Recentemente, voltou a ganhar projeção junto ao grande público ao viver o vilão Átila Argento em Beleza Fatal, produção da HBO Max, experiência que ele próprio destaca como exemplo de uma narrativa mais condensada e menos arrastada que o formato tradicional das novelas longas. Ainda assim, Capri deixa claro que é no teatro que encontra sua realização mais profunda. Para ele, o palco concentra estudo, posicionamento concreto e contato direto com o público — algo que nenhuma tecnologia seria capaz de substituir. Essa afirmação ajuda a compreender o peso de A Sabedoria dos Pais no Festival de Curitiba: não se trata apenas de mais um trabalho, mas de um encontro entre artista, cidade, memória e vocação. A sintonia entre Natália, Herson e Falabella fortalece a montagem Outro ponto decisivo para a força do espetáculo é a evidente intimidade entre os envolvidos. Herson Capri afirma que ele e Natália se dão muito bem em cena e relembra que as primeiras leituras aconteceram na casa da atriz, em um processo atravessado por acolhimento, alegria e confiança mútua. O mesmo vale para o reencontro com Miguel Falabella, autor e diretor que conhece profundamente o tempo cênico dos dois intérpretes e escreve a partir dessa escuta refinada. Essa base afetiva promete repercutir diretamente no palco. Em vez de uma simples reunião de estrelas, a montagem sugere uma obra sustentada por relações reais, por décadas de convivência e por um entendimento maduro do ofício. O público, ao que tudo indica, verá em cena não apenas dois personagens, mas dois artistas em plena capacidade de transformar experiência em presença. A Sabedoria dos Pais no Festival de Curitiba é uma das estreias mais simbólicas da Mostra Lucia Camargo Dentro da programação do Festival de Curitiba, A Sabedoria dos Pais no Festival de Curitiba se destaca por reunir elementos que raramente convergem com tanta potência: texto inédito, direção de um nome consagrado, retorno de uma atriz importante aos palcos, estreia histórica de um ator ligado intimamente à cidade e um tema universal tratado com sofisticação e leveza. Ao colocar em cena a separação, o amadurecimento e a reinvenção afetiva, a peça fala de amor sem ingenuidade e de tempo sem melancolia fácil. É uma obra sobre aquilo que permanece mesmo quando tudo muda. E talvez por isso tenha potencial para se tornar um dos momentos mais comentados desta edição do festival. Serviço A Sabedoria dos Pais – Mostra Lucia Camargo34º Festival de CuritibaLocal: Guairão – Rua Conselheiro Laurindo, 175 – Centro Data: 8 e 9 de abril de 2026 Horário: 20h30 Categoria: Comédia Classificação: 14 anos Duração: 90 minutos 34º Festival de CuritibaData: de 30 de março a 12 de abril de 2026 Ingressos:www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller – Piso L3.
- MOSTRA LUCIA CAMARGO – A Máquina volta ao Festival de Curitiba na Ópera de Arame
A Máquina no Festival de Curitiba tem gosto de reencontro histórico. Vinte e cinco anos depois de marcar uma geração e revelar ao país um elenco que se tornaria referência nas artes cênicas e no audiovisual brasileiro, o texto de João Falcão retorna ao evento em uma nova montagem da Mostra Lucia Camargo, com sessões nos dias 4 e 5 de abril, às 19h e 21h30, na Ópera de Arame. Foto: Flora Negri Baseado no romance homônimo de Adriana Falcão, o espetáculo ocupa um lugar especial na memória do teatro nacional. Na primeira passagem pelo Festival de Curitiba, em 2000, o público conheceu a história de Antônio e Karina em uma encenação que unia lirismo, humor, brasilidade e invenção cênica. No palco, estavam então nomes ainda pouco conhecidos do grande público, como Wagner Moura, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta e Gustavo Falcão, em um momento que hoje soa quase mítico para a cena brasileira. Um clássico brasileiro que segue atual A força de A Máquina no Festival de Curitiba está justamente em sua capacidade de atravessar o tempo sem perder frescor. A trama acompanha Antônio, apaixonado por Karina, disposto a construir uma engenhoca para impedir que ela deixe a pequena Nordestina, cidade onde vivem, em busca do mundo lá fora. O que poderia soar como uma simples história de amor ganha dimensão poética e popular, misturando imaginação, desejo, deslocamento e identidade brasileira. João Falcão relembra a importância daquela estreia curitibana com emoção: “Eu tenho as melhores lembranças possíveis daquele Festival de Curitiba. A gente tinha noção de que era um bom trabalho, o melhor que a gente podia fazer”. Em seguida, completa: “Foi em Curitiba que a coisa realmente aconteceu nacionalmente e ficou claro para a gente que aquele trabalho ia ter uma repercussão especial, além do trivial. As pessoas ficaram depois da sessão, do espetáculo. Foi uma catarse”. Nova geração assume o palco Para esta remontagem, João Falcão e o produtor Clayton Marques decidiram não repetir a fórmula original. Em vez de reunir o elenco da estreia, a nova versão aposta em um novo olhar e em novos corpos em cena, com os atores do coletivo Ocutá — Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Brito — assumindo a pulsação do espetáculo. Ao lado deles, Agnes Brichta dá vida a Karina, estabelecendo uma ponte simbólica com a montagem histórica: ela é filha de Vladimir Brichta, um dos intérpretes da primeira versão. A presença de Agnes reforça o diálogo entre passado e presente, tradição e reinvenção. Mais do que uma coincidência afetiva, sua escalação ajuda a reafirmar a permanência de A Máquina como obra viva, capaz de se renovar sem romper com a memória que construiu. A Máquina no Festival de Curitiba celebra o diferente A nova montagem chega ao festival cercada por um discurso que amplia ainda mais a relevância do texto. Para Agnes Brichta, a obra toca diretamente aquilo que a sociedade costuma empurrar para as margens: “Para mim, ‘A Máquina’ celebra o plural, celebra o diferente, o esquisito, o marginalizado, o que está à margem. Fala também do que tem valor e do que não tem valor, do que precisa ser escutado e do que muitas vezes é ignorado. Essas são coisas que aprisionam a gente e silenciam muitas experiências relevantes, interessantes e bonitas”. Já Bruno Rocha destaca a permanência simbólica do texto no Brasil contemporâneo. Segundo ele, a peça continua funcionando como “um espelho delicado de um Brasil que sonha em se mover”, porque parte de uma cidade pequena para falar de algo muito maior: o desejo humano de atravessar distâncias geográficas, afetivas e imaginárias. Lirismo, música e brasilidade em cena Se a montagem original ficou marcada pela mise-en-scène inventiva e pela trilha de DJ Dolores, a nova versão preserva esse espírito de encantamento e mantém viva a essência de um espetáculo que ajudou a se consolidar como clássico do teatro brasileiro. A ficha técnica confirma João Falcão na adaptação e direção, Gustavo Falcão na codireção e DJ Dolores na música original, em uma combinação que reforça o elo entre memória e atualização. Em um festival que sempre valorizou obras capazes de dialogar com o presente sem abrir mão da força estética, A Máquina no Festival de Curitiba reaparece como uma das montagens mais simbólicas desta edição. Não apenas por revisitar um marco da história recente do evento, mas por provar que certas histórias continuam necessárias quando falam de amor, pertencimento, sonho e movimento. Serviço A Máquina – Mostra Lucia Camargo34º Festival de CuritibaData: 4 e 5 de abril de 2026 Horários: 19h e 21h30 Local: Ópera de Arame Categoria: Comédia Classificação: Livre Duração: 70 minutos Ingressos:www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller.













