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Ignis Lacrimosa: quando a diferença se transforma em guerra e a perda em desejo de vingança

há 1 dia
6 min de leitura

Entre bruxaria, alquimia e conflitos ancestrais, Helena Lopes constrói uma fantasia sobre o peso das diferenças, a reconstrução da identidade e os limites entre amar, sobreviver e destruir.

Capa do livro Ignis Lacrimosa, de Helena Lopes, publicado pela Editora Rocco. A ilustração apresenta um casal em primeiro plano, com um grande dragão verde ao fundo, cercado por elementos mágicos em tons de verde e preto.
Ignis Lacrimosa, de Helena Lopes, em nova edição publicada pela Editora Rocco, com capa ilustrada que destaca os protagonistas e o universo fantástico da obra. Divulgação / Editora Rocco. 💚

Antes de qualquer análise, preciso dizer: amei a experiência de ler Ignis Lacrimosa. É uma daquelas histórias que conseguem despertar diferentes sentimentos e, ao mesmo tempo, deixar questões interessantes para pensar mesmo depois de chegar à última página. Minha avaliação é, sem dúvidas, 5 estrelas. E, se depender de nós, do Estação Cult, já queremos garantir nossa própria edição com a nova capa de Ignis Lacrimosa, que está chegando pela Editora Rocco! Afinal, algumas histórias merecem não apenas um lugar na estante, mas também uma edição especial para chamar de nossa.


Existem histórias em que a fantasia funciona como uma janela para mundos completamente diferentes do nosso. Outras, entretanto, utilizam seus elementos extraordinários para falar de questões que conhecemos muito bem, ainda que nem sempre estejamos dispostos a reconhecê-las. O preconceito, a intolerância, a disputa pelo poder e a necessidade de encontrar um lugar no mundo não dependem de dragões, feitiços ou reinos distantes para existirem. Talvez seja justamente por isso que histórias construídas em universos tão particulares consigam estabelecer relações tão próximas com a realidade.

Em Ignis Lacrimosa, Helena Lopes apresenta um continente dividido por antigas rivalidades entre bruxos e alquímicos. De um lado, um povo que encontra na magia e nas emoções sua principal fonte de poder; de outro, uma sociedade que deposita na ciência, na lógica e no conhecimento alquímico suas crenças e estruturas. Duas formas distintas de compreender o mundo que, ao longo dos séculos, deixaram de representar apenas diferenças culturais para alimentar uma relação de hostilidade.


É nesse cenário que uma ameaça surge para colocar em risco ambos os povos. A chegada dos necromantes e uma maldição devastadora fazem com que antigas disputas precisem ser reconsideradas. Diante de um inimigo em comum, os governantes encontram uma solução política: unir seus herdeiros por meio de um casamento arranjado.

Assim, Zália Wika, uma princesa bruxa, é prometida a Astero Messier, comandante alquímico conhecido como assassino de bruxos. O que deveria representar uma tentativa de estabelecer a paz, entretanto, também coloca duas pessoas criadas em lados opostos de um conflito diante de uma convivência inevitável.


Quando a diferença deixa de ser apenas diferença

Uma das questões mais interessantes da construção de Ignis Lacrimosa está justamente na oposição entre bruxaria e alquimia. À primeira vista, estamos diante de dois sistemas de poder pertencentes à fantasia, mas essa divisão também permite uma leitura sobre a maneira como sociedades estabelecem suas próprias verdades e transformam aquilo que não compreendem em motivo de rejeição.

A diferença, nesse contexto, não permanece restrita às crenças ou aos conhecimentos de cada povo. Ela passa a determinar quem merece confiança, quem representa uma ameaça e quem deve ser combatido. Quando uma sociedade aprende a enxergar a outra exclusivamente por meio de seus conflitos históricos, a possibilidade de reconhecimento desaparece. O indivíduo deixa de ser percebido por suas próprias escolhas e passa a carregar o peso de uma identidade coletiva que lhe foi atribuída.

Essa construção abre espaço para uma reflexão que ultrapassa os limites do universo fantástico: quantas vezes o ódio é sustentado por aquilo que aprendemos a acreditar sobre alguém, antes mesmo de termos a oportunidade de conhecê-lo?

A rivalidade entre bruxos e alquímicos também torna interessante a aproximação entre duas formas distintas de compreender a existência. Emoção e razão aparecem como fundamentos de sociedades que parecem não encontrar espaço para coexistir. Entretanto, talvez a própria narrativa nos convide a questionar se essas duas dimensões precisam realmente ocupar lados opostos.

Afinal, compreender o mundo exige mais do que escolher entre sentir e pensar.


Zália e a construção da própria identidade

Zália ocupa uma posição particularmente interessante dentro dessa discussão. Como princesa, carrega responsabilidades que ultrapassam seus desejos individuais. Suas escolhas não dizem respeito somente à própria vida, mas também ao destino de seu povo. O casamento com Astero representa, portanto, uma negociação política na qual sua liberdade individual precisa dividir espaço com aquilo que esperam dela.

Existe uma contradição importante nessa condição: ao mesmo tempo que Zália é apresentada como uma mulher poderosa, sua posição também a coloca diante de decisões tomadas em nome de interesses maiores.

Sua trajetória, entretanto, ganha outras dimensões quando a tragédia atravessa seu caminho e transforma seus objetivos. A busca por uma solução para a maldição deixa de ser a única motivação. A perda e o desejo de vingança passam a ocupar um espaço central, colocando a personagem diante de sentimentos que podem tanto impulsioná-la quanto consumir aquilo que ainda resta de sua identidade.

É interessante observar como a ideia de poder pode ser questionada quando alguém perde aquilo que acreditava ser sua principal fonte de força. O que permanece de uma pessoa quando suas referências desaparecem? Até que ponto somos capazes de reconhecer quem somos quando já não podemos contar com aquilo que antes nos definia?

A própria autora já comentou a relação entre os cabelos de Zália, sua conexão com a magia e a experiência de repressão vivida durante a infância. A personagem precisa encontrar a si mesma em meio à perda, e esse detalhe acrescenta uma camada simbólica à discussão sobre autonomia e identidade.

O poder, nesse sentido, não está necessariamente em permanecer intacta diante das adversidades, mas também na possibilidade de reconstruir a própria existência depois delas.

Entre o dever, o ódio e aquilo que não pode ser controlado

A relação entre Zália e Astero parte de uma circunstância bastante conhecida na romantasia: o casamento arranjado entre pessoas pertencentes a lados inimigos. Entretanto, existe uma questão que torna essa aproximação particularmente interessante: ambos chegam a essa união carregando histórias, convicções e responsabilidades que não podem simplesmente abandonar.

Astero não representa apenas o homem com quem Zália foi obrigada a se casar. Ele também é a personificação de tudo aquilo que sua sociedade aprendeu a combater. Seu título de assassino de bruxos não é um detalhe irrelevante, mas parte de uma história de violência que antecede o relacionamento dos protagonistas.

É nesse encontro que a narrativa encontra espaço para trabalhar a distância entre aquilo que nos ensinaram a odiar e aquilo que somos capazes de descobrir quando finalmente olhamos para alguém sem as interferências de antigas rivalidades.

O romance, portanto, pode ser observado para além da atração entre duas pessoas. Existe uma discussão sobre confiança, pertencimento e a dificuldade de abandonar certezas construídas durante gerações.

Isso não significa que sentimentos sejam capazes de apagar automaticamente conflitos históricos ou reparar injustiças. Pelo contrário, a possibilidade de aproximação entre os protagonistas torna ainda mais importante compreender o peso daquilo que existe antes deles.

Afinal, construir uma relação com alguém é também descobrir como lidar com as histórias que essa pessoa carrega.


Quando a vingança ameaça ocupar o lugar de tudo

Se a união entre os protagonistas representa uma possibilidade de aproximação, a busca de Zália por vingança apresenta outra direção. Depois de perder aquilo que mais ama, a personagem passa a perseguir objetivos que já não estão relacionados exclusivamente à sobrevivência de seu povo.

A vingança é um sentimento particularmente complexo porque costuma nascer de uma experiência de injustiça. Ela surge quando a dor parece grande demais para permanecer sem resposta, quando a perda exige uma explicação ou quando a reparação parece impossível.

Entretanto, existe uma diferença entre buscar justiça e permitir que o desejo de revanche determine todos os caminhos.

É justamente nessa fronteira que a trajetória de Zália ganha uma dimensão humana. A personagem precisa lidar não apenas com aquilo que lhe foi tirado, mas também com a pessoa que pode se tornar enquanto tenta recuperar o controle sobre sua própria história.

E talvez essa seja uma das questões mais interessantes que uma narrativa sobre vingança pode levantar: quando passamos a viver exclusivamente em função daquilo que nos feriu, o que acontece com todas as outras possibilidades que ainda existem diante de nós?


Uma fantasia que encontra na humanidade seu maior conflito

Em Ignis Lacrimosa, Helena Lopes reúne elementos característicos da romantasia, como magia, criaturas fantásticas, conflitos entre reinos, casamento arranjado e uma relação construída entre personagens inicialmente colocados em lados opostos.

Entretanto, o universo apresentado também abre espaço para discussões sobre intolerância, poder, autonomia e as consequências de transformar diferenças em motivos para a violência.

A presença de um dragão renascido, dos necromantes e da disputa entre bruxaria e alquimia amplia as possibilidades da narrativa, enquanto os conflitos pessoais de Zália e Astero ajudam a aproximar esse universo de questões que não são exclusivas da fantasia.

Há uma diferença importante entre criar um mundo extraordinário e construir um mundo que tenha algo a dizer. A fantasia encontra parte de sua força justamente quando consegue utilizar aquilo que não existe para iluminar aspectos daquilo que conhecemos.

No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas se dois povos historicamente inimigos conseguirão encontrar uma maneira de coexistir, mas o que será necessário abandonar para que isso aconteça.

Porque a paz não significa necessariamente esquecer o passado, assim como amar alguém não significa ignorar tudo aquilo que essa pessoa representa.

E, quando a dor se torna parte da identidade, reconstruir o próprio caminho pode ser muito mais difícil do que simplesmente escolher um novo inimigo.


Serviço

Livro: Ignis Lacrimosa

Autora: Helena Lopes

Editora: Rocco

Gênero: Fantasia / Romantasia

Classificação indicativa: 18 anos

Edição impressa: 528 páginas

ISBN: 978-65-5327-146-5


Consulte a lista de gatilhos disponibilizada no início da obra antes da leitura.

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