“Desculpe…” transforma vivências com o câncer em drama cômico nos palcos de Curitiba
- Jackson Lassen
- 24 de jul.
- 5 min de leitura
Idealizado por Fagner Zadra, Rafael Alípio e Maurício Vogue (in memoriam), espetáculo dirigido por Mauro Zanatta terá temporada gratuita entre julho e agosto.
Falar sobre câncer sem ignorar a dor, mas também sem permitir que ela ocupe todo o espaço. Essa é a proposta de “Desculpe…” espetáculo em Curitiba que estreia no dia 23 de julho e leva aos palcos experiências de artistas que enfrentaram a doença e encontraram no amor e no humor formas adicionais de atravessar um dos períodos mais difíceis de suas vidas.

Idealizada por Fagner Zadra, Rafael Alípio e Maurício Vogue (in memoriam), a montagem tem direção artística de Mauro Zanatta e assistência de Carmen Jorge. A primeira temporada acontece gratuitamente no Teatro José Maria Santos, de 23 de julho a 2 de agosto. Depois, a produção segue para o Espaço Excêntrico Mauro Zanatta, onde permanece em cartaz entre 6 e 16 de agosto.
Mais do que uma história sobre a doença, “Desculpe…” propõe um exercício de resistência. Entre situações cômicas e momentos de maior densidade emocional, a peça acompanha personagens que compartilham uma sala de quimioterapia e, apesar das diferenças, descobrem uma experiência capaz de aproximá-los.
Desculpe espetáculo em Curitiba parte de experiências reais
A origem da montagem está diretamente relacionada às trajetórias de seus idealizadores. Fagner Zadra e Rafael Alípio passaram pelo tratamento contra o câncer, enquanto Maurício Vogue, um dos nomes envolvidos na criação do projeto, morreu antes da estreia.
Segundo Mauro Zanatta, o convite para dirigir a montagem partiu do próprio trio.
“No ano passado, fui convidado pelo Maurício Vogue, Fagner Zadra e Rafael Alípio para dirigir uma obra teatral que levasse com humor a duríssima vida daqueles que enfrentam longos tratamentos de quimioterapia.”
O diretor conta que o humor já fazia parte da maneira como Vogue lidava com a doença durante o tratamento. Essa postura também encontrou ecos nas experiências dos demais criadores.
“É um privilégio poder levar a coragem destes meninos aos palcos”, afirma Zanatta.
A dramaturgia é assinada por Fagner Zadra, com textos desenvolvidos em criação coletiva. O espetáculo também conta com Michele Bittencourt, Rhenan Queiroz e direção musical de Sérgio Justen.
Uma sala de quimioterapia como ponto de encontro
É dentro de uma clínica de oncologia que os caminhos dos protagonistas se cruzam.
A peça coloca lado a lado um empresário milionário, vivido por Fagner Zadra; um artista, personagem ligado à participação de Maurício Vogue na concepção da obra; e um operário, interpretado por Rafael Alípio. As diferenças sociais e pessoais permanecem, mas perdem parte de suas fronteiras diante de uma realidade comum: o tratamento contra o câncer.
O confinamento temporário da sala de quimioterapia transforma-se, assim, em espaço para encontros, conflitos, medo, ironia e cumplicidade.
Também fazem parte desse universo a enfermeira Elizete, interpretada por Michele Bittencourt, apresentada como uma profissional sobrecarregada por suas funções, e um médico vivido por Rhenan Queiroz, personagem que enfrenta sua própria dependência de medicamentos.
A proposta não é minimizar a gravidade do câncer. Pelo contrário: o humor surge justamente do esforço de encontrar alguma possibilidade de vida em meio ao medo, à vulnerabilidade e à incerteza.
Por que pedir “desculpe”?
O título do espetáculo parte de uma reflexão sobre uma das palavras mais presentes nas relações cotidianas e sobre como ela pode assumir outros significados diante da fragilidade.
Para Mauro Zanatta, o pedido de desculpas ultrapassa situações banais e pode aparecer até mesmo quando alguém precisa ser cuidado.
“Pedimos desculpas por chegar tarde, por errar, por esbarrar em alguém, mas também por adoecer, por precisar de cuidado ou simplesmente por existir.”
É dessa contradição que a montagem extrai parte de sua força dramática. Ao colocar personagens fragilizados diante uns dos outros, “Desculpe…” também observa o isolamento que pode acompanhar a doença e a dificuldade de compartilhar dores mesmo quando elas se tornam impossíveis de esconder.
“Mesmo quando tomados pela dor e necessitados de ajuda, mesmo quando o medo perdeu sua vergonha e se instalou como máscara de desespero, nosso isolamento social é tão maior que mantém os seres humanos lidando silenciosamente com suas dores”, completa o diretor.
Do paciente para quem também aprende a cuidar
Embora a experiência dos pacientes esteja no centro da criação, o espetáculo amplia seu olhar para aqueles que acompanham de perto um tratamento.
A ligação do elenco com o tema ultrapassa a ficção. Rhenan Queiroz, viúvo de Maurício Vogue, acompanhou o ator durante seu tratamento. Michele Bittencourt leva para o trabalho a experiência de acompanhar a mãe em um processo de Alzheimer. Sérgio Justen, responsável pela direção musical, também parte de uma vivência pessoal relacionada à saúde.
Essas trajetórias ajudam a construir uma peça que não pretende falar apenas sobre quem adoece, mas também sobre redes de cuidado, familiares e pessoas que atravessam essas experiências ao lado dos pacientes.
O resultado é uma montagem que procura equilibrar dois territórios aparentemente distantes: a comicidade e a vulnerabilidade.
Maurício Vogue permanece na história de “Desculpe…”
A estreia também carrega um significado particular pela presença de Maurício Vogue na origem do projeto.
Ator e um dos idealizadores de “Desculpe…”, Vogue participou do desenvolvimento da proposta ao lado de Fagner Zadra e Rafael Alípio. Sua experiência durante o tratamento — inclusive a maneira peculiar e bem-humorada com que abordava a própria condição — tornou-se uma das bases para a construção do espetáculo.
Assim, mesmo sem estar fisicamente no palco na temporada de estreia, sua trajetória permanece integrada à dramaturgia e à própria razão de existir da montagem.
A direção de Mauro Zanatta conduz esse material buscando evitar que o câncer seja reduzido apenas ao sofrimento. O espetáculo reconhece a dureza do tratamento ao mesmo tempo em que abre espaço para afeto, humor e relações humanas construídas justamente quando as certezas se tornam menores.
Temporada gratuita passa por dois espaços de Curitiba
“Desculpe…” terá duas temporadas gratuitas na capital paranaense.
A primeira acontece de 23 de julho a 2 de agosto, no Teatro José Maria Santos, também conhecido como Teatro Zé Maria, no bairro São Francisco.
Na sequência, a montagem ocupa o Espaço Excêntrico Mauro Zanatta, entre 6 e 16 de agosto.
As apresentações acontecem de quinta a domingo, com sessões às 20h nas quintas e sextas-feiras; aos sábados, às 18h e 20h; e aos domingos, às 17h e 19h.
Os ingressos são gratuitos e devem ser retirados uma hora antes de cada apresentação.
A classificação indicativa é de 14 anos e a duração informada é de aproximadamente 60 minutos.
O projeto é realizado por meio da Lei de Incentivo do Mecenato, com apoio e incentivo do Condor e do Instituto de Oncologia do Paraná (IOP).
Ficha técnica
Elenco: Fagner Zadra, Maurício Vogue (in memoriam), Michele Bittencourt, Rafael Barreiros (Alípio) e Rhenan Queiroz
Direção artística: Mauro Zanatta
Assistência de direção: Carmen Jorge
Dramaturgia: Fagner Zadra
Textos: criação coletiva
Direção musical: Sérgio Justen
Iluminação: Lucas Amado
Figurino: Carmen Jorge
Cenografia: Rhenan Queiroz
Adereços: Patrícia Mello
Libras: Nathan Sales
Coordenação de projeto: Marcos Trindade
Direção de produção: Michele Bittencourt
Produção executiva: Paulo Marques
Design gráfico: André Coelho
Registros de foto e vídeo: Guinomo Filmes
Design de projeções: Paulo Rosa
Assessoria de imprensa: TIP – Performance de Mídia
Produção de vídeos para redes sociais: Lilith
Serviço – “Desculpe…”
Primeira temporada: 23 de julho a 2 de agosto de 2026, de quinta a domingo
Local: Teatro José Maria Santos (Teatro Zé Maria)
Endereço: Rua Treze de Maio, 655 – São Francisco, Curitiba
Segunda temporada: 6 a 16 de agosto de 2026, de quinta a domingo
Local: Espaço Excêntrico Mauro Zanatta
Horários: quintas e sextas, às 20h; sábados, às 18h e 20h; domingos, às 17h e 19h
Ingressos: gratuitos, com retirada uma hora antes de cada sessão
Duração: aproximadamente 60 minutos
Classificação: 14 anos






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