A Odisseia: uma ode ao espetáculo do cinema em toda a sua grandiosidade
- Manuella Torres Baglioli
- 15 de jul.
- 6 min de leitura
Um dos filmes mais esperados do ano de 2026 traz um elenco de estrelas e uma das histórias mais antigas do mundo para a tela do cinema.
No livro "A Teoria dos Cineastas", de 2004, o teórico Jacques Aumont disse que: "O cinema é uma arte total que contém todas as outras, que as excede e transforma.". Tal frase ajuda a compreender a proposta da produção de "A Odisseia", feita por Christopher Nolan, que traz à tela do cinema, de uma forma completamente inovadora, uma das histórias mais antigas e tão adaptadas de diversas formas. Então, o que torna essa uma adaptação diferente? O que torna essa a adaptação definitiva?
O retorno de um clássico às telas
A Odisseia narra a trajetória de Odisseu, conhecido na tradução brasileira como Ulisses, o lendário herói da Guerra de Troia, em sua longa e árdua jornada de retorno à ilha de Ítaca. Após dez anos de combate, na hora de voltar para casa, o guerreiro enfrenta a fúria dos deuses por meio de criaturas míticas, tempestades e dos traumas deixados pela guerra, transformando sua viagem em um percurso de sobrevivência, resistência e autoconhecimento.
Paralelamente, em Ítaca, sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco lidam com as consequências de uma ausência que parece interminável. Sem um rei para governar, o reino mergulha na desordem política e social, enquanto diversos pretendentes ocupam o palácio, na tentativa de convencer Penélope a escolher um novo marido e assumir o trono.
Apesar da pressão constante e da crença generalizada de que Odisseu está morto, Penélope permanece fiel ao marido, sustentando a esperança de seu retorno. Já Telêmaco cresce à sombra de um pai que nunca conheceu verdadeiramente, buscando compreender seu legado, descobrir se ele ainda está vivo e encontrar seu próprio lugar em um mundo marcado pela incerteza e pela responsabilidade de suceder uma figura transformada em lenda.
A grandiosidade de um espetáculo pensado para o cinema
No filme, Nolan conta toda essa história em uma mega produção de quase 3 horas de duração, sendo algo que, à primeira vista, pode parecer muito tempo e que vai contra o caminho que se tornou seguro e lucrativo de tantas outras produções, de dividir em duas partes de lançamento, com cada uma sendo lançada em um ano. Mas que aqui se tornam 3 horas que o espectador tende a perceber menos sua duração diante da intensidade narrativa de estar dentro de uma narrativa frenética e complexa, onde cada segundo de tela tem um motivo para estar ali, além do fator de ter um elenco de tantas estrelas, como Matt Damon no papel principal de Odisseu, Anne Hathaway como Penélope, Tom Holland como Telêmaco, Zendaya como a deusa Athena, Robert Pattinson como Antinous e muitos outros rostos conhecidos, até mesmo fora do mundo da atuação, que geram surpresa ao serem reconhecidos ao aparecer na grande tela do cinema.
É definitivamente o tipo de filme que merece ser visto no cinema, em uma tela grande, com caixas de som que transmitem todos os efeitos sonoros que fazem o espectador pular na cadeira. Não à toa, o filme foi pensado exatamente para tal, sendo gravado inteiramente com câmeras IMAX desenvolvidas especialmente para a captação do longa, além de jogos de espelhos para permitir que os atores conseguissem se ver entre os gigantescos materiais de gravação.
Apesar disso, o longa não chega ao Brasil de forma completa como foi gravado. Nolan idealizou a produção sendo gravada em película 70mm, sendo o primeiro filme da história a ser gravado inteiramente no formato desse método, que registra a imagem por meio de um processo fotoquímico, produzindo um grão natural, cores mais suaves e uma textura visual característica. Além disso, sua ampla capacidade de registrar detalhes, tanto nas áreas claras quanto nas escuras da imagem, confere maior riqueza de contraste e profundidade. Essas características fazem com que muitos cineastas associem a película a uma estética mais orgânica e cinematográfica.
No Brasil, entretanto, o filme não será apresentado da mesma forma, mas sim por meio de projetores digitais a laser, garantindo a máxima fidelidade visual em alta resolução. Apesar de tal, o filme leva às telas um espetáculo de grandiosidade.
A força das atuações e os desafios da adaptação
As atuações, de forma nada surpreendente diante de um elenco de peso, são impecáveis. Cada intérprete confere ao seu personagem uma identidade singular, fazendo da emoção o verdadeiro centro da narrativa. Mesmo quando os sentimentos são contidos e não precisam ser verbalizados ou explicitados, eles transbordam na tela. O espectador percebe a dor nos pequenos detalhes: nos olhos marejados, no queixo trêmulo, na mandíbula cerrada e nos breves silêncios que dizem muito mais do que qualquer diálogo.
Por outro lado, a presença de um elenco de tamanho prestígio também evidencia uma das possíveis limitações do filme: em alguns momentos, surge a sensação de que determinados nomes poderiam receber um aproveitamento maior, com personagens mais desenvolvidos e uma presença mais significativa na narrativa. Curiosamente, o maior destaque recai sobre três personagens femininas, aspecto que reacende uma crítica recorrente à filmografia de Christopher Nolan: a dificuldade do cineasta em construir personagens femininas.
O ponto de maior destaque nessa questão talvez esteja na interpretação de Anne Hathaway como Penélope, que entrega uma atuação marcada pela sutileza e pela riqueza de detalhes, seja no tom de voz, nos olhares ou nas expressões contidas. Entretanto, apesar da força da personagem, sua trajetória por vezes parece ser apresentada mais pelos relatos de outros personagens do que verdadeiramente explorada em cena. Um exemplo disso está no famoso episódio em que Penélope tece diariamente uma peça, prometendo que escolherá um novo marido após concluí-la, mas desfaz secretamente seu próprio trabalho durante a noite para adiar a decisão. Um elemento tão fundamental da narrativa original acaba não sendo representado visualmente, surgindo apenas como uma breve menção feita por outro personagem em um momento de conflito.
Os figurinos são excepcionais e contribuem para a construção de uma identidade visual que transmite com precisão o período histórico em que a narrativa se passa. Da mesma forma, a ambientação de Ítaca, Troia e dos vastos mares reforça a imersão do espectador naquele universo mítico. O filme consegue transformar o oceano em uma presença quase viva, fazendo com que o público sinta a grandiosidade, o perigo e a fúria dos mares de Poseidon contra Odisseu, tornando a jornada do herói ainda mais intensa e ameaçadora.
Os enquadramentos e a fotografia transportam o espectador para o centro da narrativa, transformando cada cena em uma experiência sensorial. A jornada é marcada por emoção, dor e ressurgimento, construída a partir de uma história robusta e complexa, que depende da profundidade de seus diversos personagens. Somado a isso, o roteiro está longe de seguir uma estrutura linear: a narrativa alterna constantemente entre o presente e as memórias da Guerra de Tróia, revelando gradualmente os acontecimentos e reconstruindo o passado de Odisseu. Essa escolha faz com que o público descubra a trajetória do herói ao mesmo tempo em que os próprios personagens revisitam suas lembranças, tornando a experiência ainda mais imersiva e emocional.
Entretanto, justamente pela complexidade da obra original, surge um dos maiores desafios da adaptação: a relação entre o filme e o conhecimento prévio do espectador. A Odisseia de Homero é uma narrativa construída a partir das consequências de outro grande acontecimento, a Guerra de Troia, e parte de sua força está justamente no fato de que seus personagens carregam consigo uma história anterior. Dessa forma, o longa parece dialogar principalmente com aqueles que já conhecem a obra ou que chegam ao filme dispostos a descobrir uma narrativa já estabelecida no imaginário coletivo, permitindo que essas pessoas apreciem melhor as referências e camadas construídas por Nolan.
Para espectadores que têm neste filme seu primeiro contato com a jornada de Odisseu, entretanto, a estrutura fragmentada e a ausência de uma contextualização mais extensa podem representar um desafio, tornando alguns acontecimentos e relações mais difíceis de compreender. Surge, então, uma questão fundamental para qualquer adaptação: ela deve priorizar aqueles que já conhecem a obra original ou funcionar como uma porta de entrada para novos públicos? No caso de A Odisseia, Nolan parece escolher preservar a complexidade e a grandiosidade da narrativa clássica, assumindo o risco de que parte do público precise se aproximar da obra original para absorver completamente sua dimensão.
Uma ode ao cinema e ao legado de Homero
De forma geral, A Odisseia, de Christopher Nolan, é uma obra cinematográfica em sua mais pura essência. O filme resgata uma narrativa já amplamente adaptada e difundida ao longo dos séculos, mas consegue transformá-la em algo novo sem abandonar a força e a fidelidade ao material original. É uma produção que utiliza a tecnologia como uma ferramenta para potencializar a experiência cinematográfica, mas que entende que o verdadeiro valor está na história, nos personagens e nas emoções humanas que atravessam a jornada. Com todos esses elementos, o longa se apresenta como uma obra com potencial para se tornar uma referência sobre A Odisseia, além de despontar como um dos grandes filmes de 2026 e um forte protagonista na temporada de premiações.
Nota: 4,5/5.

Serviço:
Filme: A Odisseia
Título original: The Odyssey
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan, baseado no poema épico de Homero
Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Zendaya, Lupita Nyong'o, Charlize Theron, Jon Bernthal, Samantha Morton, John Leguizamo e Himesh Patel
Gênero: Aventura, Ação, Fantasia e Drama
Duração: 172 minutos (2h52)
Distribuição no Brasil: Universal Pictures
Estreia no Brasil: 16 de julho de 2026
Onde assistir: Exclusivamente nos cinemas
Classificação indicativa: 14 anos no Brasil






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